Defensoria e Coritiba firmam parceria para acolhimento de mulheres no Couto Pereira 11/09/2026 - 17:33
A Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPE-PR) e o Coritiba dão um novo passo para tornar o futebol um ambiente cada vez mais seguro, acolhedor e acessível às mulheres. A partir de uma parceria entre as instituições, o Estádio Couto Pereira passa a contar com uma sala especialmente destinada ao atendimento de mulheres que enfrentarem situações de assédio ou violência durante os eventos realizados no estádio.
Essa estrutura está à disposição desde sexta-feira (11), na partida em que o Coritiba recebeu o Athletico-PR pela 27ª rodada do Campeonato Brasileiro. A iniciativa integra o protocolo “Não se Cale – Estádio Seguro”, desenvolvido para estabelecer um fluxo de acolhimento, proteção e orientação jurídica às mulheres.
“A parceria entre a Defensoria Pública e o Coritiba representa um avanço importante para tornar o estádio um lugar cada vez mais seguro, acolhedor e respeitoso para todas as mulheres. A partir dessa parceria, as mulheres que sofrerem qualquer forma de assédio ou violência dentro do Couto poderão contar com um espaço de acolhimento e atendimento jurídico especializado, realizado por uma equipe formada exclusivamente por mulheres”, afirma a defensora Mariana Nunes, coordenadora do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (NUDEM).
Segundo ela, além do atendimento, o projeto também aposta na prevenção, com ações de educação em direitos e conscientização. A ideia é que nenhuma mulher deixe de ocupar esse espaço por medo ou insegurança.
O procedimento prevê desde a identificação da situação, que pode ser feita pela própria vítima, pelas acolhedoras presentes no estádio e pela equipe de segurança. Depois, é realizado o encaminhamento da mulher para uma sala reservada, onde ocorre a escuta qualificada, com garantia de sigilo e avaliação preliminar de risco.
Quando acionada, uma defensora pública de plantão assume o atendimento jurídico. Em situações de risco imediato, o protocolo prevê o afastamento do agressor e o acionamento da segurança e da polícia. Também estabelece procedimentos para preservação de provas, identificação de testemunhas e registro do relato inicial. A mulher recebe ainda informações sobre seus direitos e pode decidir sobre o registro de ocorrência e a solicitação de medida protetiva.
O atendimento não termina necessariamente no estádio. Conforme cada caso, estão previstos encaminhamentos para a rede de apoio, transporte seguro, medidas protetivas, registro de boletim de ocorrência ou outras providências legais. O protocolo determina ainda que o registro interno seja realizado sem exposição da vítima e prevê monitoramento posterior quando assim for necessário.
“Agradecemos à Defensoria Pública do Estado do Paraná por estar conosco nesta importante iniciativa. É um privilégio contar com o apoio de uma instituição reconhecidamente íntegra e que presta um serviço de enorme relevância à população”, destaca o gerente de marketing e comunicação do Coritiba, Beto Matta. “Aqui no Coritiba, entendemos que é imprescindível a mobilização de toda a sociedade para coibir qualquer tipo de violência contra a mulher. Esse novo espaço no Couto Pereira foi pensado com muito cuidado, respeito e responsabilidade e representa mais uma das frentes em que trabalhamos diariamente no clube”, afirma.
De acordo com ele, garantir mecanismos concretos de prevenção, acolhimento e resposta é uma medida de proteção, mas também uma forma de contribuir para que cada vez mais mulheres possam acompanhar o futebol, torcer e viver plenamente tudo o que o esporte proporciona. “Queremos que toda mulher que venha ao Couto Pereira saiba que este também é o seu lugar e que aqui ela deve se sentir respeitada, acolhida e segura”, completa.
Projeto Ampara
Por meio do NUDEM, a Defensoria atua judicial e extrajudicialmente na garantia desses direitos e na integração das diferentes instituições que compõem as redes de proteção às mulheres em situação de violência.
Entre as iniciativas está o Atendimento à Mulher Paranaense pela Defensoria Pública (Ampara), que completou seu primeiro ano de funcionamento. Nesse período, já realizou mais de dois mil atendimentos a mulheres em situação de violência doméstica e familiar, alcançando 80 municípios do Paraná.
O serviço oferece atendimento jurídico e psicossocial gratuito, sigiloso e totalmente on-line, realizado por uma equipe exclusivamente feminina.
A experiência da instituição no tema é anterior. Somente em 2023, a área de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da DPE-PR contabilizou 21.096 atos, incluindo orientações e atendimentos especializados, ações judiciais e audiências.
A atuação também produziu reconhecimentos importantes. Uma decisão judicial obtida a partir da atuação conjunta da DPE-PR, inclusive com participação do NUDEM, foi reconhecida no Concurso Nacional de Decisões Judiciais e Acórdãos em Direitos Humanos, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O caso envolveu violações sofridas por uma mulher gestante no sistema prisional e estabeleceu um precedente relevante na proteção de direitos humanos.
Mais recentemente, a Defensoria ampliou sua atuação com iniciativas como o Projeto de Enfrentamento à Violência Política de Gênero, voltado ao atendimento jurídico de mulheres vítimas desse tipo de violência.
A presença da Defensoria no Couto Pereira, portanto, acrescenta ao protocolo a experiência de uma instituição especializada no acolhimento, na orientação jurídica e na articulação da rede de proteção às mulheres.
Como denunciar
Qualquer situação de violência e assédio contra mulher, racismo, LGBTfobia podem ser denunciados. As vítimas podem procurar qualquer acolhedora e relatar a situação. As acolhedoras estarão caracterizadas com colete roxo.
A acolhedora vai orientar e direcionar a vítima, averiguar se ela desejar ir adiante, para a sala de acolhimento. Na sala, a vítima será ouvida e orientada dos próximos passos.
As acolhedoras ficarão circulando por todos os setores do Couto Pereira. Mas o estádio também terá pontos fixos para o recebimento de denúncias. Esses locais serão divulgados em um mapa nos canais oficiais do Coritiba.
A sala de atendimento especializado começa a funcionar já na abertura dos portões de acesso ao torcedor ao Couto Pereira– duas horas antes do início da partida. Encerram o expediente com o término da partida.
Mulheres que eventualmente estiverem sendo mantidas em situações de ameaça, coerção ou impedimento dentro do estádio, devem, sempre que possível e sem colocar sua segurança em risco, tentar se afastar do agressor e solicitar ajuda a um profissional de segurança do estádio, policial ou acolhedora.
Futebol também precisa enfrentar a violência contra a mulher
A criação de um mecanismo específico de proteção dentro do Couto Pereira responde a um problema que ultrapassa os limites dos estádios de futebol e que também mantém relação preocupante com o universo do esporte.
A segunda edição do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher”, divulgada em agosto de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), identificou que os registros de lesão corporal decorrente de violência doméstica contra mulheres aumentam 28,8% em dias de jogos de futebol. As ocorrências de ameaça crescem 27,4%. Entre meninas e mulheres de 15 a 29 anos, o aumento dos dois tipos de ocorrência chega a 44,4%.
O levantamento analisou dados de 2023 a 2025 e cruzou registros policiais com partidas do Campeonato Brasileiro, da Libertadores e da Copa Sul-Americana em cinco capitais brasileiras. A base reuniu mais de 308 mil ocorrências, sendo 219.595 registros de ameaça e 88.720 de lesão corporal.
Os números não significam que o futebol seja a causa da violência. No entanto, eles demonstram uma associação estatística relevante entre dias de partidas e o agravamento de situações de violência que já fazem parte da realidade brasileira.
Realidade que torna imprescindível a mobilização dos clubes e demais instituições, que têm a capacidade de influenciar comportamentos, valores e milhões de pessoas por meio da força social de suas marcas.
A discussão ganha importância também dentro dos estádios. O receio de sofrer violência ou assédio podem funcionar como barreiras à presença feminina nos ambientes esportivos. Estudos sobre a experiência das torcedoras apontam que infraestrutura, segurança e políticas de inclusão são elementos relevantes para que mulheres possam ocupar as arquibancadas como espaços de lazer e pertencimento.
Por isso, garantir mecanismos concretos de prevenção, acolhimento e resposta não representa apenas uma política de proteção. É também uma maneira de contribuir para que mais mulheres possam exercer plenamente o direito de acompanhar o futebol, torcer e ocupar todos os espaços do esporte.



























