Defensoria e instituições avançam na proteção das gameleiras do Centro de Curitiba, árvores sagradas das religiões de matriz africana 21/01/2026 - 15:05

A Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPE-PR), demais instituições e entidades da sociedade civil estabeleceram uma série de medidas para garantir a proteção e conscientização sobre a importância das gameleiras da Praça Tiradentes, no Centro de Curitiba, símbolos sagrados para religiões de matriz africana e patrimônio material e imaterial da cidade. Desde dezembro, o grupo de trabalho avança na criação do plano de salvaguarda, que envolve desde projetos educacionais a respeito do valor histórico das árvores até políticas de segurança que assegurem a liberdade religiosa. O grupo de trabalho envolve também o Conselho Municipal de Patrimônio, pesquisadores e lideranças religiosas.

Tradições de Candomblé referenciam as gameleiras como morada do orixá Irôko, que representa a dimensão do tempo. As árvores da Praça Tiradentes costumam receber grupos para a realização de festividades e cortejos, a exemplo das celebrações do Dia do Caboclo, em julho.

As gameleiras ganharam o registro de patrimônio cultural em 2024, também com atuação da Defensoria no procedimento administrativo. “O reconhecimento dos Irokos tem um valor muito importante na luta antirracista, no reconhecimento das religiões de matriz africana e de seu valor ancestral”, afirma Camille Vieira da Costa, defensoa pública e coordenadora do NUPIER. “Isso demonstra que Curitiba tem diferentes origens, que existe uma multiplicidade de culturas que contribuíram para a construção da cidade”.

A aprovação do plano de salvaguarda é a última etapa para conclusão do tombamento das árvores, sob proteção já desde o início do procedimento.

O assessor jurídico do NUPIER, Dieikson Braian Ribeiro, explica que o plano para preservação do patrimônio sagrado possibilita que novas gerações entrem em contato com a ancestralidade das religiões de matriz africana. “Nesse contexto, há um conceito importante denominado sustentabilidade cultural. Ele cria condições para que o patrimônio esteja livre de ameaças e não seja danificado”, explica o assessor. “É um aspecto importante do plano de salvaguarda, para que o bem permaneça existindo e não sofra ataques”. 

O grupo de trabalho deve passar a contar com colaborações também do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), de Secretarias Municipais, da Guarda Municipal e do Conselho Municipal para a Promoção de Igualdade.

As árvores Irokos

Comuns na região tropical da África, as árvores Irokos representam a morada do sagrado e reforçam as fortes conexões das religiões de matrizes africanas com a natureza. Por ser uma espécie rara no Brasil, os praticantes das religiões atribuem às gameleiras ou figueiras-brancas a função de morada do sagrado, visto que possuem características similares às árvores em que o orixá Iroko habita. 

“A cultura dos povos de terreiro compreende aspectos litúrgicos que só existem em vínculo direto com a natureza. Nossas tradições dependem profundamente dela para existir — da colheita de folhas e raízes ao acesso a fontes, cachoeiras e rios. Todos esses territórios são, para nós, extensões do espaço sagrado, pois é neles que buscamos a essência do axé”, explica Baba Flávio Maciel, coordenador-geral do Fórum Paranaense de Religiões de Matriz Africana. 

Um relatório apresentado no Conselho Municipal do Patrimônio Cultural aponta que a forma como as gameleiras estão dispostas na Praça Tiradentes, em formato circular, indica que possam ter sido plantadas especificamente para práticas religiosas. Uma pesquisa realizada pelo Coletivos do Axé, intitulada Inventário de Terreiros de Candomblé em Curitiba e Região Metropolitana, indica que os registros marcam presença das práticas desde a década de 1970. 

Atualmente, a preocupação dos praticantes das religiões de matrizes africanas é justamente o bem-estar do patrimônio.

“O tombamento surge, portanto, como uma forma de assegurar não apenas a preservação física das árvores, mas também o reconhecimento do seu valor simbólico, religioso e cultural para os povos de terreiro. Ele reafirma o direito dos povos de matriz africana de existirem e manifestarem sua fé em espaços públicos”, afirma Maciel. “O tombamento das gameleiras reconhece, de forma oficial, a presença e a contribuição dos povos de matriz africana na construção da cidade. Também resgata uma memória coletiva de resistência, devolvendo visibilidade e dignidade a práticas que ajudaram a moldar a identidade cultural de Curitiba”, afirma o coordenador.

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