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Defensoria

18/05/2017

Projeto de leitura muda rotina de presas em Francisco Beltrão

Bastaram apenas seis meses para que as mudanças no comportamento das presas da Cadeia Pública de Francisco Beltrão, no Sudoeste do estado, se tornassem visíveis. Em um ambiente em que normalmente o clima é de tensão e insatisfação, os livros, revistas, cadernos e lápis passaram a dominar o cenário. O medo do futuro incerto de quem busca uma segunda chance vem dando lugar à esperança reavivada pela leitura atenta e pela escrita que brota de dedos, ainda tímidos, sobre o papel em branco.

Isso tem sido possível graças a uma iniciativa da Defensoria Pública do Paraná em Francisco Beltrão, que iniciou um projeto multidisciplinar com as mulheres custodiadas na cadeia da cidade. Além de promover a leitura através do empréstimo de livros doados pela comunidade, a iniciativa também tem despertado o gosto pela escrita, pela pesquisa e pela perspectiva de retomar os estudos após o período de encarceramento. Durante os encontros promovidos pela DPPR, que ocorrem a cada 15 dias e envolvem um grupo de 7 mulheres, as presas também são convidadas a falar sobre os temas abordados nos livros, sobre suas angústias, medos e sobre as relações interpessoais, dentro e fora da cadeia.

“Elas relatam que estão escrevendo mais para as suas famílias, não apenas na quantidade, mas também com mais qualidade na escrita. Elas comentam que depois de ter contato com os livros perceberam a importância da grafia das palavras e que agora pesquisam antes o uso correto delas”, revela a psicóloga Delair Spezia Pandolfo, responsável pelo projeto juntamente com o psicólogo João Paulo Howeler. O objetivo é proporcionar a continuidade do desenvolvimento dessas pessoas privadas de liberdade, possibilitando o manejo de questões urgentes dentro desse ambiente, tais como: família, filhos, saúde, futuro e muitas outras que surgem durante o projeto.

“Os encontros sempre se mantiveram muito flexíveis e sensíveis às demandas apresentadas. Dessa forma, outros direcionamentos foram tomados a partir de cada nova percepção. Além dos livros, tivemos a possibilidade de trabalhar com filmes e desenhos. Em um dos encontros, para manejar uma questão específica, uma das mulheres questionou a possiblidade de utilizar lápis e papel para facilitar a expressão. Conseguimos organizar essa prática, com lápis coloridos, papel e gravuras”, explica Delair. Até um dicionário para consulta rotineira da ortografia e do significado das palavras foi pedido pelas detentas.

Autonomia

De acordo com os psicólogos envolvidos no projeto, outro aspecto importante observado durante as atividades na cadeia tem a ver com o desenvolvimento da autonomia e da motivação pessoal das mulheres para a aprendizagem. Elas chegaram a se organizar para ter aulas de gramática e caligrafia. Inclusive uma das detentas, que tem mais facilidade em lidar com textos, se prontificou a auxiliar as outras nas lições.

Outra mulher relata que, nas cartas encaminhadas ao filho adolescente, ela menciona os livros que está lendo e as histórias que lhe são mais significativas. “Ela se emocionou ao perceber que, mesmo dentro da prisão, conseguiu influenciar o filho, pois ele também se interessou pelos livros e está lendo mais”, conta Delair.

O hábito da leitura e as conversas com os psicólogos também têm ajudado as presas a trabalhar o convívio pacífico dentro das celas. Problemas que antes geravam desgaste e tensão passam a ser resolvidos com base no diálogo. “Agora aqui é assim, a gente senta e resolve tudo. Se fosse antes, eu ia ficar mal o dia inteiro e estourar se alguém me perguntasse o que eu tinha. Mudou muito o jeito como a gente se relaciona agora”, relatou uma das custodiadas.

A DPPR

A Defensoria Pública do Paraná, uma das mais recentes do Brasil, completa nesta sexta-feira (19) seis anos de atividades desde sua regulamentação, que ocorreu através da Lei Complementar Nº 136, de 19 de maio de 2011, a chamada Lei Orgânica da DPPR. Apesar de ainda estar em fase de expansão, a instituição já vem colhendo os frutos do trabalho diário de seus membros, servidores, estagiários e voluntários, que possibilita levar assistência jurídica integral e gratuita à população carente do estado.

Somente nos três primeiros meses de 2017, a DPPR realizou, em todo o estado, quase 85 mil procedimentos, entre atendimentos, ações judiciais, acordos, audiências e muitas outras atividades relacionadas ao seu universo de atuação. No mesmo período de 2016 foram realizados cerca de 44 mil procedimentos – aumento de 92,55% no comparativo. Além de aprimoramentos nos processos administrativos e de atendimento ao público, o número se justifica pela chegada de 36 novos defensores públicos, que começaram a atuar em abril do ano passado, possibilitando expandir o número de sedes e áreas de atuação. Além disso, mais dois concursos públicos – um para defensores e outro para servidores – estão em andamento, o que deve reforçar os quadros da instituição em breve.

Veja mais informações sobre o atendimento da Defensoria Pública do Paraná em Francisco Beltrão.


Relatos
Trechos escritos pelas próprias presas sobre a participação no projeto da Defensoria:

“Com a leitura, posso ver um mundo lá fora de outra maneira. Minha autoestima melhorou muito. Estou me desenvolvendo bem nas leituras, na escrita. Aprendi a ter mais paciência e ver o outro lado da moeda. Não gostava de estudar, agora estou animada pra voltar a estudar. Eu vou, eu posso, eu consigo uma nova chance para a minha vida! O poder da palavra e dos pensamentos tem muita força, e somos capazes de realizar nossos sonhos. Pra mim, [o projeto] foi a melhor coisa que aconteceu. Estou muito feliz por Deus ter colocado vocês nas nossas vidas.”

“Conseguimos nos expressar e também aprendemos a ouvir melhor as colegas, e a entender os sentimentos dos outros. Com as conversas com os defensores, nós acabamos nos esquecendo que nos encontramos nesse lugar, privadas da nossa liberdade. E com os livros, nós conseguimos nos transportar um pouco para fora da cadeia e viajar pelo mundo. Também nos ajuda a ficar mais cultas, inteligentes, com uma mente aberta para o mundo.”
 

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